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Quinta-feira, Abril 29, 2004  
Becos e ladeiras
Esquecidos ou degradados, locais foram "point" da boemia
Carmen Vasconcelos

Mal o relógio marcava 21h, as ladeiras e os becos de Salvador começavam a assistir, silenciosos, à procissão animada daqueles jovens boêmios, músicos e sambistas, que quase todas as noites saíam em peregrinação da Baixa dos Sapateiros em direção à Ladeira da Montanha. No caminho, nenhum boteco da Ladeira do Taboão, do Pelourinho e da Misericórdia ficava imune diante daquele cortejo que comia, bebia e cantava como se a vida fosse acabar naquelas madrugadas. Daqueles tempos saudosos, Clementino Rodrigues, o sambista Riachão, 79 anos, recorda com saudade das "amigas" da ladeira da Misericórdia, da Gameleira e de uma certa Conceição, da Ladeira da Montanha. Em todos esses lugares, o "coro comia" até o raiar do Sol.


"Era um tempo bom aquele. Os amigos se reuniam para cantar, tocar violão e cavaquinho, e, principalmente, beber. Não uma bebedeira deselegante, mas uma bebidinha com classe para animar a festa da rapaziada. Havia, inclusive, um violonista ? chamado João Português - que era um verdadeiro show", recorda o sambista. Mais de 50 anos depois, as ladeiras e becos perderam a qualidade de abrigar apenas a boemia da cidade do Salvador. Embora locais mais recentes como o Beco dos Artistas (no Garcia) e a recém-nominada Ladeira do Pelô (batizada no século XIX como Ladeira das Portas do Carmo) resistam e mantenham bravamente a tradição, hoje ladeiras e becos também abrem espaço para o comércio em geral. Sem se deixar impressionar pelos novos logradouros da velha cidade da Bahia, continuam sugerindo, com sutileza e malícia, a história latente até nos nomes que batizam essas tão pitorescas localidades.


Proteção da cidade


Na verdade, a história das ladeiras e becos de Salvador está profundamente ligada à fundação da cidade. De acordo com o historiador Cid Teixeira, as ladeiras vieram primeiro e são resultado das idéias de Thomé de Souza em defender a cidade, ignorando qualquer noção de urbanismo. "Para proteger a cidade da Colônia, o primeiro governador da Província escolheu o sítio mais escarpado. A necessidade de criar ligações entre a parte alta e o porto resultou, então, em ladeiras", explica o historiador. Para tentar solucionar os problemas de ligação entre as cidades alta e baixa (que em alguns trechos chegam a apresentar desníveis próximos dos cem metros) surgem as ladeiras da Conceição da Praia, do Caminho do Mar (que mais tarde viria se chamar Ladeira da Misericórdia) e do Pau da Bandeira. A primeira ganhou o nome em virtude da devoção e da igreja erguida em louvor a Nossa Senhora da Conceição da Praia. Em 1584, o historiador Gabriel Soares descrevia o logradouro como "o caminho que está na parte do sul (da Praça do Palácio), serventia de Nossa Senhora da Conceição, onde está o desembarcadouro geral das mercadorias". A razão do batismo da segunda ladeira mais antiga da cidade também é fácil de deduzir, enquanto a última ganhou o nome de Pau da Bandeira em virtude do mastro fincado para orientar a entrada e saída das embarcações no porto da velha Bahia. Parte desse último logradouro desapareceu. Além das ladeiras, a velha Salvador também contava com escadarias, que foram sumindo com o tempo e as modificações na estrutura da cidade.


Lisboa Tropical


Para o leitor penalizado com os inúmeros sacrifícios que os avós faziam para se locomover entre um ponto e outro da cidade, vale uma informação importante. Os que podiam pagar podiam tornar o caminho mais suave usando os serviços das "cadeiras de arruá", conduzidas por quatro negros de ganho, que faziam os senhores lucrarem com uma espécie de ponto de táxi colonial. Havia nesse mesmo esquema o transporte de rede e o transporte com cavalos. Braz do Amaral registra que por 80 contos de réis, o transeunte podia alugar na parte baixa da Ladeira da Misericórdia um cavalo que o conduziria até a Praça do Palácio, "onde logo que se apeava o cavaleiro, o animal voltava por si mesmo, pelo costume de fazer somente aquela viagem".


Nomes ilustres


Os becos de Salvador surgiram depois que a comunidade estava instalada e a estratificação social definida, delegando aos menos favorecidos a vida nesses locais. "Os becos eram muito comuns na parte baixa da cidade e, geralmente, eram titulados com o nome dos moradores mais expressivos ou da característica mais marcante", esclarece Cid Teixeira, pontuando os becos da Carne-Seca, do Mota, de Maria Paes ( ou Maria Paz como se escreve nos dias atuais), do Gavazza, entre tantos outros. Naquela época não havia necessidade de possuir um nome famoso (o batismo de ruas com nomes ilustres só vai acontecer no século XX) para merecer o registro nas ruas de Salvador. Segundo o jornalista Luiz Eduardo Dórea, autor do livro Nomes que contam a história das ruas, o que diferencia Salvador das demais cidades do mundo, onde o nome dos logradouros termina por preservar a memória dos fatos históricos, é a quantidade de localidades batizada dessa forma. "É possível percorrer ruas, ladeiras e becos da capital baiana vivendo a história do século XVI até hoje", pontua Dórea, que dentro em breve estará lançando uma nova edição do livro - a primeira edição, encomendada pela Câmara de Vereadores para comemorar os 450 anos da Cidade, está completamente esgotada -, mais completa. Outro aspecto importante destacado pelo autor diz respeito ao fato de a Bahia ter preservado a estrutura medieval de constituição dos centros urbanos, caracterizada pelas associações de pessoas que possuíam hábitos comuns, gerando nomes de logradouros como a Baixa dos Sapateiros, Beco dos Barbeiros (atual Rua 21 de Abril), Beco dos Calafates (na Ribeira, local onde os calafates se encarregavam de impermeabilizar a parte externa das embarcações). Além dessa característica, a Lisboa Tropical construída nas terras brasileiras também era marcada pelos nomes que sugeriam a devoção religiosa dos colonizadores. Vide a Ladeira dos Aflitos, construída em 1798, sob a inspiração da capela (transformada mais tarde em igreja) do Nosso Senhor dos Aflitos, ou o Beco da Agonia (em Nazaré), assim nominado em virtude de um oratório - já desaparecido ? para a invocação do Senhor Bom Jesus da Agonia.


Suavidade e beleza


Ladeiras ajudaram a incrementar atributos das mulheres filhas da miscigenação


De tão importantes, as ladeiras da cidade do Salvador foram cantadas e declamadas em verso e prosa. Em 1948, o poeta Godofredo Filho retratava com suavidade e beleza os encantos da Ladeira da Misericórdia, afirmando que o local era "ladeira sem princípio. Ou por princípio, sem fim. É ladeira que começa onde eu queria acabar. É ladeira da Bahia. Cruel ladeira perdida, que por boca da ironia se diz da Misericórdia". Os mais empolgados chegaram a atribuir a essa obra da engenharia humana a responsabilidade de esculpir a engenharia divina de pernas e quadris das baianas. Ledo engano. Segundo o ortopedista e professor da Universidade Federal da Bahia Luís Shipper, as ladeiras não contribuíram com tão formosa anatomia, quando muito, apenas ajudaram a tonificar músculos de panturrilhas, coxas e nádegas. A crua realidade aponta apenas a miscigenação racial e a ascendência africana como resultado dessa beleza e da manemolência típica da Bahia. "Na verdade, a topografia irregular da cidade é um problema para quem é portador de patologias nos joelhos, pois o movimento de subidas e descidas termina por sobrecarregar essa parte do corpo", explica o especialista, indiferente aos olhos apaixonados dos poetas. Cenário de noitadas indescritíveis, farras homéricas, as ladeiras também são - segundo os ortopedistas - um convite até hoje para as torções de tornozelos. Mas o que seria do encanto das rosas, se não houvessem os espinhos para torná-las mais míticas?

Mitos e encantos nunca faltaram às ladeiras de Salvador, embora nem sempre essas lendas estejam baseadas em fatos reais. Na Ladeira das Portas do Carmo, a Ladeira do Pelô imortalizada pela axé music, por exemplo, nunca houve escravos carregando troncos ou apanhando de forma desumana. O historiador Cid Teixeira é enfático em afirmar que o Pelourinho não se relacionava ? na cidade de Salvador ? com o escravo e sim com as feiras que aconteciam no centro. "O primeiro pelourinho foi fundado onde hoje está a Praça Castro Alves, depois foi transferido para a atual Praça Municipal e, por fim, foi colocado no lugar atual, que era onde estava o limite norte da cidade. Ou seja, a cidade era fechada nas Portas do Carmo, onde atualmente se encontra o restaurante do Senac", esclarece o professor. O piso de pedra da Ladeira do Pelô é outro mito desmentido pelos historiadores, que garantem que naquela época o pavimento era de terra batida e que as pedras irregulares foram colocadas depois do fim da escravidão no Brasil.

A Ladeira de Água Brusca também possui uma história curiosa. Durante o ciclo açucareiro na Bahia, poucos engenhos localizados no perímetro urbano haviam conseguido êxito na sua produção (havia os Engenhos da Federação e de Brotas). O engenho de Cristóvão Aguiar Daltro era uma exceção, pois os rios que cortavam suas terras favoreciam a movimentação das rodas dos moinhos. Sem herdeiros naturais, o senhor de engenho deixou suas riquezas e as terras para os Meninos da Companhia de Jesus. As corruptelas e reduções tornaram o lugar conhecido como Água de Meninos e os espaços por onde desciam os rios caudalosos ficou conhecido como Água Brusca.


Cenário de combates


As ladeiras também ficaram conhecidas como cenário de combates históricos. A Ladeira do Baluarte - situada no lado esquerdo da Fortaleza de Santo Antônio Além do Carmo - foi o palco das derrotas sofridas pelos invasores holandeses em 9 de maio de 1624. No local, Francisco Padilha, Luiz Barbalho e outros capitães derrotaram Maurício de Nassau. A fortaleza, ou seja, o baluarte, terminou por denominar o logradouro. Os engarrafamentos terão um novo gosto para quem estiver no bairro de Nazaré em direção a Brotas e, ao passar pela Ladeira dos Galés, não esquecer que o logradouro - construído em 1810 - não ganhou esse nome à toa. A ladeira foi construída por pessoas que faziam trabalhos forçados, com correntes nos pés para evitar fugas, daí o nome galés (trabalhos forçados). Mais que história, as ladeiras de Salvador também marcaram a vida boêmia. Conhecida por escritores e artistas famosos, a Ladeira da Misericórdia na verdade chamava-se Rua Padre Manoel da Nóbrega. Infelizmente, naquela época, a sinalização das ruas era feita com tabuletas de madeira. A ação do tempo apagou o nome do religioso ilustre, restando apenas as duas últimas sílabas: brega. Como a área era zona de meretrício, a população começou a se referir ao local como brega, gerando um neologismo que não mais se refere aos locais de prostituição, mas virou sinônimo de mau gosto em todo o Brasil.

Construída em 1873, pelo engenheiro Francisco Pereira Aguiar, a Ladeira da Montanha se imortalizou nos romances de Jorge Amado e na memória de inúmeros artistas e intelectuais da época. Para Luiz Eduardo Dórea, os casarões que abrigavam as "mulheres da vida" foram verdadeiros espaços democráticos no passado, pois acolhiam - sem distinção de raça ou condição econômica - marginalizados e pessoas de destaque na sociedade. "Funcionou na Ladeira da Montanha um dos melhores e mais conhecidos prostíbulos da cidade, que ocupava o imóvel de número 63. Nas rodas boêmias se misturavam malandros, estudantes e intelectuais", pontua o jornalista. A ladeira, tema de livros, também foi palco de inúmeros crimes passionais e tragédias. A mais grave delas aconteceu em 1978, quando um deslizamento da encosta, provocado pelas fortes chuvas de junho, destruiu um posto de gasolina (que existia na parte alta da ladeira), sete casarões e matou mais de uma dezena de pessoas. Hoje, apesar das propostas de recuperação, a Ladeira da Montanha sofre com a decadência do local e os atuais moradores pouco ou nada sabem do apogeu do logradouro também batizado como Rua Barão Homem de Mello, em homenagem ao político da época. A Ladeira do Curuzu ficou conhecida mundo afora na voz da cantora Daniela Mercury. É lá que, todo sábado de Carnaval, o Ilê Aiyê recebe visitantes ilustres e repete rituais do candomblé antes de desfilar negritude nas ruas da capital.


Entra em beco, sai em beco


Os versos do folclore popular famosos na música Madalena, de Gilberto Gil, não escondem que a boemia também estava presente nos becos de Salvador. O Beco de Maria Paz é um bom exemplo disso. Segundo o jornalista e advogado Jeová de Carvalho, no texto Velhos fantasmas de uma noite nova, havia no discreto recanto da Rua Carlos Gomes uma tal de Maria Paz que, "para a reprovação das famílias que ainda restavam na Rua Chile de 1929, exibia, aos passantes, belos espécimes de louras argentinas, suecas, francesas". Apesar de pitoresco, o conto não encontra eco entre os historiadores que atestam não haver provas sobre a existência dessa cafetina. De concreto existem apenas os registros que o beco foi aberto no século XVII, interligando a Rua de Baixo de São Bento (atual Carlos Gomes) e a Rua de São Bento. Em 1866, foi registrado por Melo Morais como Beco de Maria Paes, estabelecendo de vez a confusão de quem teria sido a personagem.

Naquela mesma época, é registrado - na freguesia de São Pedro - o Beco dos Barbeiros. O nome dessa localidade faz parte das características medievais da velha Salvador que, assim como a capital portuguesa, nominava logradouros de acordo com as associações de profissionais que se estabeleciam no espaço. Um dos nomes mais curiosos de becos em Salvador é o dos Escravos, localizado nas proximidades da Igreja de Santana e do Fórum Ruy Barbosa. Apesar das lendas já produzidas para justificar o batismo do beco, a nomenclatura nasceu de uma corruptela da língua. No Beco dos Escravos morava uma senhora famosa por adorar plantas. Entre as suas flores favoritas estavam os cravos, cultivados com devoção e em grande quantidade. O beco então passou a se chamar de Beco dos Cravos. "A pronúncia e a mente mais criativa de alguns transformaram o local em beco dos Escravos", conta o historiador Cid Teixeira.

Nos anos 30, do século XX, um beco ficou famoso em Salvador pela guerra que terminou por provocar entre dois comerciantes famosos. Naquele período, Saladino Ventin e Enéias Bacelar brigavam para ver quem conseguia estabelecer seu negócio no Beco do Vinagre. Para o primeiro, nada impedia que fosse montado uma espécie de bar ao ar livre. Para o segundo, o beco era particular e o seu estabelecimento podia ser ampliado até as portas do concorrente. Hoje, os becos ainda são motivo de disputas. Ponto de encontro da nova boemia baiana, o Beco dos Artistas, no Garcia, assistiu há alguns anos à briga entre os comerciantes e moradores da área. Os primeiros reclamavam das mesas e cadeiras colocadas do lado de fora dos bares, que dificultavam a entrada e saída de veículos. Os segundos argumentavam que as mesas do lado de fora eram as preferências dos clientes. Apesar de ter perdido a disputa, os comerciantes e seus bares continuam movimentando a área durante todos os dias da semana, principalmente nas sextas e sábados, quando representantes de várias tribos urbanas dão o tom ao lugar.

4/29/2004 09:18:29 AM

 

Mil faces da Sé

Andreia Santana

"Aqui é onde estão precisando de um menino para mandados?" A pergunta, feita pelo rapazola de 13 anos, calças curtas, suspensórios e boné, em busca do primeiro emprego na Salvador de 1929, marcaria para sempre o destino de Abdon Matos Rosado, uma das raras testemunhas vivas - fora do ambiente acadêmico - da metamorfose dos 68 anos de existência do Largo, e posteriormente, da Praça da Sé.

Livreiro há 70 anos na Praça da Sé, seu Abdon, hoje com 85, acompanhou passo a passo todas as mudanças ocorridas na antiga freguesia fundada no século XVI, pelo bispo d. Pero Fernandes Sardinha. Desde menino, ele já passeava pelas ruas estreitas e se abrigava na sombra dos casarões ou na porta da antiga catedral para conversar com os companheiros da mesma idade. Um dia, motivado pela necessidade em ajudar a família numerosa, foi pedir emprego na Livraria Galdino. Assim começou a carreira do livreiro mais antigo da Bahia ainda em atividade, terceiro filho de uma escadinha de 12 irmãos.

Ao longo de quase sete décadas, milhares de pessoas pisaram o chão sacramentado pelo arcebispo primaz e modificado pela ação de arquitetos, engenheiros e até artistas. Só que Abdon Rosado, como sempre trabalhou na Sé, viu cada detalhe ser tirado ou acrescentado primeiro no bairro, depois no largo, e finalmente na praça que faz parte de sua rotina desde a adolescência. A igreja primacial do Brasil foi derrubada em 1933, dando origem ao Largo da Sé e deixando o caminho livre para as linhas do bonde da Companhia Circular de Carris da Bahia. O aprendiz de livreiro tinha 17 anos e também viu desaparecerem os dois quarteirões de casas coloniais dos séculos XVIII e XIX, demolidos pouco depois do templo. Era só o começo das reformulações que a Sé sofreria com o passar dos anos. Já estabelecido em negócio próprio, seu Abdon veria a casa onde funcionava a editora de Galdino Loureiro ser demolida numa reforma futura do bairro e no seu lugar ser construído o edifício Themis. "Minha recordação mais viva da Sé era o passadiço que ligava a igreja ao Paço Arquiepiscopal. Havia também a passagem ligando a Rua da Misericórdia à Rua do Bispo. O bonde passava no fundo da igreja e a companhia dizia que era preciso fazer uma volta muito grande para ele alcançar a Misericórdia. Se a antiga catedral fosse retirada, esse problema ficava resolvido. A decisão de derrubar a Sé marcou o fim de uma era", recorda.

Para estudiosos do assunto como o professor Fernando Rocha Peres, diretor do Núcleo de Estudos Baianos da Ufba, a desobstrução da rua para deixar o bonde passar era só um dos motivos para derrubar a igreja que sediou o primeiro arcebispado do país. Já em 1912, o então governador J. J. Seabra desejava substituir a catedral por ruas largas e modernas avenidas. Para alcançar esse fim, ele começou a derrubar as antigas construções coloniais que "atravancavam o progresso de Salvador". No livro Memória da Sé, Peres afirma que desde essa época, o destino da igreja foi selado. O que, segundo ele, a preservou ainda por alguns anos foram as negociações entre a arquidiocese e a empresa concessionária do bonde sobre a quantia da venda do templo. "A Sé foi vítima de urbanistas deslumbrados com o progresso demolidor. Durante a projeção da Avenida Sete de Setembro, a idéia era derrubar o Mosteiro de São Bento, o que não aconteceu devido ao prestígio dos beneditinos. Se o patrimônio histórico não tivesse sido criado em 37, os prédios do Centro Administrativo fatalmente estariam no Pelourinho", acrescenta o pesquisador.


Arcebispado da Bahia


Corria o ano de 1552, o bispo d. Pero Fernandes Sardinha atravessou o Atlântico com a missão de fundar a primeira Sé do Brasil, sede do seu arcebispado. Ao desembarcar em Salvador, constatou que a cidadela murada não possuía espaço para abrigar o novo templo. A capelinha que fora construída pelos padres jesuítas também não era digna de ser morada do bispo primaz. Acanhada, feita de taipa e palha, a igrejinha de Nossa Senhora da Ajuda podia até servir para os primeiros habitantes da colônia fazerem suas orações, mas não comportava oficíos da importância de um bispado. A solução encontrada por Sardinha foi literalmente saltar os muros da cidade e mandar construir um templo mais significativo do lado de fora. Os jesuítas, interessados em abrir seu colégio, foram com ele.

No espaço, que hoje é conhecido como Praça da Sé, a cidade de Thomé de Souza começou a expandir-se. A própria aparência que Salvador tem atualmente seria outra se o bispo devorado pelos caetés de Alagoas não tivesse insistido em ultrapassar os limites da cidadela fortaleza projetada por Luís Dias. "O sítio onde hoje existe a praça e onde até 1933 a Igreja da Sé Primacial do Brasil dominou a paisagem foi o primeiro impulso para expandir o núcleo primitivo de Salvador. A cidade de Thomé de Souza se extendia apenas da Praça Castro Alves até a Misericórdia, depois do início da construção da igreja da Sé e do Colégio dos Jesuítas, ela cresceu até chegar ao Pelourinho", explica o arquiteto Franscisco Sena, presidente da Fundação Gregório de Mattos, onde estão guardados os registros fotográficos de todas as etapas vividas primeiro pelo largo e depois pela Praça da Sé desde a destruição da igreja.


A praça que não era


Quatro séculos e meio depois de Sardinha ter enfrentado o perigo da floresta e dos ataques indígenas para construir a sede do bispado, a Praça da Sé, que está em sua quinta versão, guarda no seu subsolo a íntima relação com a expansão da cidade colonial. Debaixo do calçadão de granito e do atual projeto urbanístico, descansam os restos da igreja e das sucessivas praças que existiram após sua derrubada. Cada uma delas, modificadas em curtos espaços de tempo, serve como registro da velocidade com que Salvador cresceu no século XX.

A primeira particularidade na história da Praça da Sé, no entanto, é que o espaço não foi projetado necessariamente para ser uma praça. Aliás, o local era conhecido como bairro da Sé, o mais antigo da capital, remanescente da freguesia criada por Sardinha. A igreja foi sacrificada em prol da abertura de novas vias de circulação. A área passou a chamar-se Largo da Sé, reurbanizado e inaugurado entre o final dos anos 30 e o começo dos 40. No adro do templo, catedral da cidade até 1765, era onde existia realmente uma pracinha chamada Dona Isabel. Ela também foi reformulada, originando o Belvedere da Sé, o único ponto que realmente lembrava uma praça, com bancos, árvores, a vista para a Baía de Todos os Santos e uma sorveteria.

Durante mais de três séculos, a visão de quem chegava por mar em Salvador ou olhava para a montanha a partir da Cidade Baixa, era a igreja. Construída voltada para o mar, a Sé foi usada como fortaleza pelos holandeses na invasão de 1624 e como ponto de defesa dos portugueses, na de 1638. A então freguesia, até a primeira metade do século XIX, era a mais prestigiada dentre as dez que compunham Salvador. Primeiro porque nela ficava a catedral, a Santa Casa de Misericórdia, o Palácio do Bispo e o Colégio dos Jesuítas. Segundo porque a montanha onde estava encravada a igreja era ponto crucial na defesa da cidade.

O bonde, que selou oficialmente o fim da igreja e marcou o nascimento do largo, deixou de circular em 1960, sendo substituído pelos ônibus coletivos gradativamente já a partir dos anos 50. Nessa época, o sítio da Sé sofreu sua segunda mudança, com a construção de um terminal para os ônibus. Quando chegou a Salvador, em 59, Armindo Perez Bollosa ainda alcançou o bonde circulando no bairro, além de ter visto a grande movimentação de pedestres no terminal e nas casas comerciais da região. A Sé e a Rua Chile eram os pontos mais elegantes da cidade na década de 50. Lá ficavam os melhores cafés e as lojas de renome.

Terceira geração a cuidar da Primavera Musical, que está na Sé desde 1876, seu Armindo, que tem 57 anos, apesar de não ter visto a antiga catedral de pé, lamenta o fato de ela ter sido derrubada para dar lugar a um meio de transporte desaparecido menos de 30 anos depois. "O terminal de ônibus possuía linhas para todos os cantos da cidade. A Sé era o centro de onde todo mundo se deslocava para o resto de Salvador por isso, vivia apinhada de gente. Para implantar os pontos de ônibus talvez nem houvesse necessidade de destruir a igreja", opina.



Erro histórico
Destruição não impediu que a área virasse ?~~point?~~ da boemia na velha Salvador


O busto de D. Sardinha demarcava o exato local onde ficava o altar-mor da Catedral da Sé. A homenagem ficou acertada entre o arcebispado e a diretoria de obras da prefeitura quando da discussão sobre os termos de desapropriação da igreja demolida. Em novembro de 1941, o projeto recebeu a aprovação do município. Três anos depois, em 29 de junho de 1944, D. Sardinha, todo em bronze sobre um pedestal de cantaria, ganhou lugar de honra no Largo da Sé. Para quem sentia saudades da sombra da igreja, a estátua funcionava como um lembrete do erro histórico cometido com seu desaparecimento. De 44 até a reformulação iniciada em 98, D. Sardinha permaneceu no seu posto de guardião de um passado equivocado. Na versão mais moderna da praça, a estátua mudou de lugar, passando ainda a receber a companhia de um Thomé de Souza, obra em tamanho natural confeccionada pelo artista plástico Vauluízio Bezerra. A demarcação do altar também desapareceu. Ao invés de assinalar o ponto chave da ex-catedral, o novo projeto optou por exibir os alicerces de suas quatro quinas.


No início dos anos 80, mais uma vez a Sé sofreria mudanças. Com a construção da Estação da Lapa, em 1982, os antigos pontos do largo foram desativados e a Sé virou um imenso calçadão. Ganhador da licitação para realizar a decoração daquela nova fase, o artista plástico Juarez Paraíso foi buscar nos desenhos do entalhe de prata do antigo altar-mor da catedral a inspiração necessária para compor os desenhos que seriam aplicados no calçadão, no passeio e nas transversais da Sé. "Pesquisei sobre os antigos entalhes do altar-mor e estilizei alguns detalhes compondo os desenhos que seriam aplicados em pedra preta, branca e cinza. Além da estátua do arcebispo, os próprios desenhos no chão também reverenciariam a igreja primaz", explica Juarez Paraíso.


Incentivo à cultura


A relação da Sé com a arte e a cultura começou com a própria igreja, considerada pelo cronista Gabriel Soares como uma das mais magníficas de seu tempo. Por herança, essa relação perdurou na praça e principalmente no belvedere. "Minha primeira exposição individual ao ar livre foi no antigo Belvedere da Sé, em 1955. O local era ponto de encontro de intelectuais, artistas e da velha boemia de Salvador", revela o artista plástico Mário Cravo, autor da Cruz Caída em aço instalada na nova versão do Belvedere. Seu Abdon Rosado, recorda que muitos dos ex-governadores de Salvador costumavam dar passeios na praça e no belvedere. "Os cafés viviam cheios de escritores como Jorge Amado, Pinheiro Viegas e Queiroz Júnior, grandes destaques da época. Tinha também um caricaturista chamado Barros, ele retratava figuras famosas, artistas, políticos, magistrados e fazia muito sucesso entre os freqüentadores da Sé", conta o livreiro.

No antigo belvedere foi exposta até a carcaça de uma baleia. Além disso, um palco armado no espaço servia para apresentações de boxe e capoeira. Outra peça que decorava o belvedere e depois retirada, foi o mural feito pelo gravador alemão radicado no recôncavo baiano Hansen Bahia. Este mural foi uma das obras de arte destruídas durante uma das reelaborações da área.


Antigas ligações


Juarez Paraíso também possui relações com a Sé anteriores ao trabalho que fez na praça em 82. Ele manteve um ateliê na Rua do Bispo por cinco anos. "Quando era professor da Escola de Belas Artes, costumava levar meus alunos para o Belvedere, onde eles desenhavam os capoeiristas que se apresentavam lá", acrescenta. Freqüentador da praça em diversas fases, o artista lamenta o estado de degradação que atingiu a Sé no final dos anos 80, quando seu comércio entrou em decadência. A destruição do calçadão que ele executou foi outro episódio que desagradou Paraíso. "Achei uma falta de consideração não ser avisado que o trabalho seria destruído. Mas já estou acostumado", diz, referindo-se aos painéis que perdeu com a venda do antigo Cine Art, no Politeama, transformado em igreja evangélica. Em 1991, quando um segundo terminal de ônibus foi instalado na Sé a pedido dos comerciantes da área, metade da obra realizada pelo artista foi perdida, restando ainda o sítio do altar-mor com o busto de D. Sardinha. Nessa época, a Sé teve sua quarta versão, mantida até 98, quando a prefeitura decidiu dar outro uso ao histórico chão da praça.


Sítio arqueológico


As escavações para a reforma atual da Praça da Sé revelaram um dos mais importantes sítios arqueológicos encontrados recentemente no Brasil. No projeto atual, concebido pelo arquiteto Assis Reis, já estava previstas a exibição dos alicerces da antiga catedral de Salvador. Segundo ele, o arquiteto Diógenes Rebouças costumava falar sobre a necessidade de fazer uma prospecção arqueológica na Sé. Tanto que, quando os especialistas do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba começaram a cavar, surpreenderam-se com as descobertas. As escavações, coordenadas pelo professor Carlos Etchevarne, atrasaram a conclusão da obra e foram responsáveis por algumas mudanças no projeto original. O resultado, porém, confirmou as afirmações dos especialistas que atestam que na Praça da Sé está um dos sítios históricos mais significativos do país.

"Uma das maiores surpresas para a população foram os esqueletos encontrados no subsolo da praça. Na verdade, já esperávamos que isso acontecesse, porque até a segunda metade do século XIX não existiam cemitérios públicos e as pessoas eram enterradas no interior e no entorno das igrejas", informa a arqueóloga Ana Cristina Souza, integrante da equipe que estuda a Sé. De acordo com ela, apesar dos esqueletos achados ainda estarem sendo estudados, tudo indica que eles pertenciam a índios catequizados, negros e brancos pobres. Isso porque dentro das igrejas eram enterrados os membros do clero, das irmandades e das famílias nobres. Ao resto da população, restava o adro como representação de solo santificado. Além dos esqueletos, louças portuguesas, colares e artefatos indígenas estavam misturados ao solo da praça. Muitas peças, porém, talvez nunca tenham sua origem revelada, pois elas foram jogadas na Sé quando o espaço onde está o belvedere foi aterrado. "Conseguimos achar indícios da antiga pracinha que existia antes do belvedere. O resto do material está descontextualizado porque não sabemos de que parte da cidade ele veio, mas serve como um bom ilustrativo de períodos remotos", acrescenta a arqueóloga.


Design moderno


O último trecho da nova Praça da Sé ainda está por concluir. Outra prospecção arqueológica no local onde existiu um dos pavilhões do Colégio dos Jesuítas revelou alguns alicerces do antigo prédio e alteraram os planos de transformar aquele trecho num memorial para a cidade de Salvador. Segundo Assis Reis, esse setor da praça já foi revisado e a sugestão dada pelo arquiteto é a de substituir o projeto do memorial, que seria subterrâneo, por uma fonte luminosa. "A secretaria de planejamento e os técnicos do museu de arqueologia estão nos entendimentos finais sobre o destino daquela área", diz.

Para os comerciantes da Sé, a nova praça, apesar de dar um uso mais turístico ao ambiente, ainda não é a solução ideal, do ponto de vista de quem precisa de movimento freqüente para sobreviver. Seu Armindo Bollosa, por exemplo, gostaria que tivesse sido projetado um estacionamento subterrâneo. O que deve ter sido descartado devido ao valor histórico do subsolo da Sé. "Esse novo projeto é bonito, mas tem um uso muito turístico, o comércio não pode sobreviver apenas da sazonalidade do turismo", queixa-se o comerciante.

De acordo com Assis Reis, o novo design, em vez de ferir a harmonia com os prédios centenários, como o do Paço Arquiepiscopal, pretende antes "propor um novo e rico uso público para a Praça da Sé, criando um ambiente de convivência coletiva", explica. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) não pensa assim: a área para prestação de serviços projetada para o Belvedere, por exemplo, teve de sofrer a diminuição em um metro na sua altura, depois que o Iphan reclamou que o prédio afetaria a visão da Santa Casa de Misericórdia.

"Quando solicitado para reinterpretação do Espaço da Sé, fui tomado pelo sentimento que reconhece no fundamento da minha obra, os valores estruturais e culturais da nossa cidade. Assim, pensar na Sé foi pensar no lugar, no tempo e na memória", enfatiza o arquiteto, defensor do casamento entre história e contemporaneidade. A nova cara da Sé, ou melhor, todas as faces que ela já revelou até hoje, dividem opiniões. Tem quem goste e tem quem critique. Na verdade, os motivos variam de acordo com o tipo de relacionamento que cada um tem com a praça. Os comerciantes pensam na subsistência, os arquitetos na evolução e os historiadores queriam que o tempo voltasse e que essa matéria fosse escrita de outra maneira. Talvez, narrando todo o Centro Histórico em festa, para a reinauguração da Catedral da Sé estaurada, ao invés de demolida. Restam as fotografias como memória dos erros, acertos e, principalmente, da passagem do tempo na Sé.



4/29/2004 09:17:47 AM

 

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Com uma coleção de 18 mil LPs, o empresário Fernando Alves reúne raridades na sua discoteca
Pablo Reis

Depois de atrair, aos 9 anos, a atenção da pequena Cachoeiro do Itapemirim imitando o cantor paulista Bob Nelson em uma rádio local e integrar os conjuntos Os Sputniks (com Tim Maia) e The Snakes (com Erasmo Carlos), o jovem Roberto Carlos, com 20 anos, estava pronto para iniciar a carreira solo. Entrou no estúdio da gravadora Columbia, em 1961, junto com Astor e sua Orquestra e de lá só saiu depois de mixadas as 12 faixas do LP Louco por você. O primeiro disco do futuro rei era completamente diferente do repertório que notabilizaria o cantor mais bem-sucedido do Brasil, primeiro artista latino-americano a vender mais do que os Beatles, com 85 milhões de discos, em 1994. Com canções de Bossa Nova, suingue, sambinhas, bolero e até fox-trott, Louco por você não prenunciava nada do fenômeno musical.


Depois de ouvir o LP, o compositor e produtor musical Roberto Menescal desaconselhou o jovem xará a tentar ser um rival de João Gilberto na bossa nova. Recomendou que ele enveredasse na incipiente Jovem Guarda, cujo maior expoente era Sérgio Murilo, intérprete de Marcianita e Biquíni de bolinha amarelinha. Dois anos depois, sairia Splish Splash, o disco que colocou Roberto Carlos na capa e nas paradas de sucesso. As 500 cópias de Louco por você ficaram praticamente renegadas pelo cantor, que jamais permitiu o relançamento da "bolacha".

Esse pequeno excerto biográfico de Roberto Carlos é apenas para mostrar a gênese de uma raridade. Aquele disco maldito, praticamente esconjurado pelo artista cânone da música nacional, do qual emana uma autoridade quase sacerdotal no conjunto da obra, tornou-se peça de colecionador. Alguns sebos com página na internet oferecem o LP por R$2 mil. Um deles, chamado Barraca do Elvis, na Rua do Imperador, em Recife, oferece o álbum por uma pechincha: R$1,4 mil.

O administrador de empresas Fernando Alves, um dos poucos brasileiros que possuem a obra, é orgulhoso da propriedade, ao contrário do cantor, até hoje inconformado com o deslize de início de carreira. Só que Alves não tem apenas uma relíquia musical para ufanar-se. Com uma coleção de 18 mil discos de vinil e 4.100 CDs, o musicista detém um acervo de preciosidades sonoras, rico na história da música nacional e internacional. Na Bahia, só é superado pelo veterano radialista Perfilino Neto, que emprestou o nome e o conjunto de 50 mil discos para a criação do Museu do Rádio Baiano, sediado em uma das salas da Rádio Educadora.

Com dois cômodos da casa tomados por estantes repletas de bolachas e equipamentos de som, Fernando Alves acredita ter uma das maiores discotecas particulares do Brasil. "Estou comprando discos há 34 anos", calcula o empresário, que tem 49 anos. Data mais ou menos dessa época a descoberta pelo empresário de um filão comercial inusitado. "Meu pai me deu uma radiola estéreo portátil de presente de 15 anos. Era uma sumidade na época. Comecei a gravar fitas, que eram muito caras. Para você ter uma idéia, para comprar três cassetes virgens precisei apelar ao crediário", rememora.


Trabalho e prazer


O acaso - esse deus temporal que muitos chamam de destino - encarregou Fernando de se encontrar com a profissão que abraçaria com dedicação quase litúrgica. Fez uma seleção de músicas italianas e deu de presente ao professor de Matemática, Geraldo Souza. O docente considerou o mimo inaceitável: era muito caro. O impasse foi resolvido depois que o professor argumentou que aceitaria o serviço de Fernando como presente, mas pagaria pelo produto. "Um colega meu viu a transação e deduziu que o professor estava comprando a fita. Aí, ele me fez a primeira encomenda", relata. A partir daí, nascia o Fernando empresário do ramo musical, se é que um menino empenhado em gravar fitas cassete pode ganhar essa denominação.

São poucos os que conseguem unir trabalho e prazer, hobby e sustento. Em seu estúdio improvisado no apartamento, Fernando Alves agrega a trilha sonora da doce vida a um meticuloso ofício de remasterizar raridades, gravando em CDs. E deleita-se com o legado do deus Apolo aos homens. "Formei meus dois filhos e construí um patrimônio graças à música", ressalta ele, que também organiza sonorização de eventos.

Para quem já ouviu todos os estilos, do tocador de cítara ao cantor de pagode, é de se esperar um apurado gosto musical. Fernando adianta que gosta de música boa ("qualquer estilo"), mas chega a derramar lágrimas ao som de um cadenciado jazz de piano e trompete ou música clássica. "Você vai ouvir agora a música de minha morte", avisa. É o aceno magistral para o sopro delicado, em vinil, da melodia de uma valsa da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, chamada A Canção do Aventureiro. "Quando eu morrer, quero que tenha uma música alegre", antecipa, mudando a trilha para um trecho da ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni. "Ao som de música clássica, uma alma não pode ter outro destino que não o paraíso".


Raridades fonográficas


Só que é no manuseio de raridades fonográficas que Fernando Alves delira. Elas são muitas. E especiais. Um disco de nome Polêmica eterniza uma peculiar forma de digladeio intelectual entre os compositores Wilson Baptista e Noel Rosa. Em 12 faixas, eles duelam com músicas feitas especialmente para responder ao outro, em forma de provocação. "Você conhece uma orquestra de 40 acordeons?". A pergunta, feita em tom de desafio, é seguida de um rápido vasculhar entre long-plays diversos até chegar a um disco raro patrocinado pela fabricante de instrumentos Palmer-Hughes. A empresa montou um conjunto para executar músicas internacionais e divulgar o instrumento mundo afora. O resultado é primoroso. Uma das faixas é a empolgante execução do Bolero de Ravel com vários tipos de acordeons sucedendo-se enquanto a música ganha o seu ritmo crescente em emoção. "Você já ouviu Bolero de Ravel de todos os tipos, menos dessa forma inusitada", adivinha Alves.

O primeiro disco de João Gilberto (Chega de saudade), outro do violonista baiano Codó e um álbum intitulado Sambas-de-roda de Salvador, pesquisado e produzido por Walmir Lima, estão incluídos na lista de preciosidades. Dois discos gravados por Chico Buarque na Itália cantando em espanhol e italiano e uma obra de Gilberto Gil lançada só na França com a trilha sonora do filme Quilombo aumentam o baú sonoro de Fernando Alves. Entre 18 mil peças, é quase impossível dizer qual a melhor ou a mais rara. "Fica difícil, é como querer saber de qual filho você gosta mais", compara, renovando o amor por sua prole cantante.



Purificador de sons


Trabalho de remasterização minucioso e impecável exige apuro técnico e conhecimento musical


Fernando Alves recebe a reportagem do Correio da Bahia em seu estúdio já pedindo desculpas por ter de terminar rapidamente mais um trabalho. Na tela do potente computador de última geração, um programa gráfico exibe a imagem de um disco antigo, cuja capa o entrevistado começa a reproduzir. A foto é de três homens, dois negros e um branco, sem camisa caminhando em uma praia. No alto, o título do LP: Os Tincoãs. Os Tincoãs? O nome, de uma sonoridade tupi-guarani, é quase como um enigmático mantra para quem tem menos de 30 anos e não seja um exímio pesquisador de música. "Eles foram um conjunto de grande sucesso no final dos anos 60 e início de 70. Eram de Cachoeira", explica Alves.

Inspirados no Trio Irakitan, Os Tincoãs investiram, no começo da carreira, em versões de bolero. Depois, mudaram a temática para músicas de origem afro e alguns sambas de roda. Com essa receita, alcançaram o topo das paradas no extinto programa Globo de Ouro, da Rede Globo. Gravaram três discos. "Tenho todos eles", antecipa-se Fernando Alves, enquanto dá os últimos retoques na parte gráfica de sua mais nova produção: a versão para CD de uma coletânea do agora já devidamente apresentado grupo Os Tincoãs.

O principal trabalho de Fernando Alves, um administrador de empresas formado que não quis ser um executivo tradicional, é o de remasterização de LPs. É uma atividade que exige paciência e minuciosidade. Além de cuidar da transposição do áudio para a nova mídia, ele ainda tem o primor de reproduzir as capas e criar os selinhos que são colados na superfície do compact-disc. Ele mesmo faz questão de avisar que executa praticamente qualquer serviço relacionado com música, de sonorização para festas à adaptação de equipamentos. "Recentemente, fiz um home theater na casa de um cliente orçado em R$48 mil", divulga.

A essência eclética do trabalho remonta desde a época de adolescente, quando foi obrigado a ajudar no sustento da família, depois que a empreiteira do pai, Mundial Construções, decretou falência. "No começo, não havia produção dos equipamentos de som no Brasil, todos era importados. Toca-fitas para carro era artigo de luxo, então eu comecei a adaptar os toca-fitas comuns nos carros. Saía muito mais em conta do que importar um original", descreve.

Embora os outros tipos de trabalho envolvam cifras maiores, é com a remasterização que Alves incrementa o orçamento. Não pede menos de R$35 por CD. "Dizem que sou o que cobra mais caro na Bahia. Mas é muito melhor pagar isso comigo do que R$15 ou R$20 por qualquer serviço malfeito", avalia, desprezando a falsa modéstia. A remasterização engloba uma limpeza completa dos ruídos e estalos característicos dos antigos discos de vinil. É como o marceneiro que lixa continuamente a madeira antes de passar a demão de verniz.


A vassourinha do jazz


Para exemplificar o motivo de seu trabalho ser mais valorizado do que a média do mercado, Fernando Alves conta uma historinha. "Uma vez, um cliente me trouxe um LP para eu masterizar do encontro histórico do jazz: o pianista Oscar Peterson e o violinista Stephane Grappelli. Eu disse que não faria porque a obra ainda estava no catálogo, sendo vendida em CD. Ele insistiu. Depois que eu terminei o trabalho, o cliente me trouxe o CD feito pela gravadora para comparar com o que eu fiz. Ouça você mesmo", convida Fernando, colocando os dois no player. Um ouvido desatento poderia até classificar ambos como semelhantes. Mas uma audição um pouco mais aguçada percebe facilmente que o CD da gravadora corta o som quase imperceptível da vassourinha usada pelo baterista para roçar o chimbal. No de Fernando, o som é constante, ao fundo, naquele suave estremecimento hipnótico que caracteriza as boas composições de jazz.

O condicionamento auditivo para saber o ponto certo da remasterização foi obtido em anos de trabalho e também numa profissão que desempenhou nos efervescentes anos 70. "Fui DJ. Fazia o som da antiga boate Bual''Amour, desde o tempo em que era apenas um galpão cercado com madeirite. Às sextas e sábados, passava de carro no Farol da Barra e arrastava os clientes para a boate", relembra ele, que tocava como principais hits My pledge of love e Listen to the music.

Exibindo três pilhas de álbuns de clientes para remasterizar, Alves diz que tem pouco tempo para curtir sossegadamente uma boa música. "Durmo sempre à 1h da madrugada. Quando acordo, antes de escovar os dentes, já coloco um disco para gravar no computador", revela, confessando já ter um acervo de 30 mil músicas digitalizadas. Uma dúvida que surge é onde entram os direitos autorais nessa partitura. Alves não desafina na resposta. "Meu serviço é pegar o LP de um cliente e transferir para CD. Cobro apenas pela remasterização. Isso não caracteriza pirataria até porque o valor é mais caro que os CDs do mercado", explica. "Agora, se o cara pega o CD para fazer 100 cópias depois, é problema dele com a Polícia Federal", completa.

Assim como o cantor e compositor Ed Motta (ele também um colecionador com mais de 20 mil vinis e 10 mil CDs), Fernando Alves considera algumas propriedades dos antigos long-plays insuperáveis. "O grave é mais aberto, o agudo apurado", especifica. Atualmente, vinil só é produzido em algumas fábricas da Europa, justamente visando o mercado dos colecionadores. O próprio Ed Motta lançou seu mais recente álbum (Dwitza) em CD e LP, por uma gravadora da Grã-Bretanha. "O único cuidado é não deixar arranhar, nem empenar e ter atenção na hora de manusear, pois pode partir", recomenda. Num canto da sala, álbuns tão diversos como o disco original da trilha sonora do filme Golpe de mestre e outro com As anedotas do Pasquim, contadas por Chico Anísio, Ronald Golias, Zé Vasconcelos e Ziraldo, são provas do zelo.

Alves, que realizou a pesquisa de repertório dos álbuns Djavan - Novelas e Rita Lee -Novelas para a gravadora Som Livre, dedica-se ao projeto pessoal de montar coletâneas com as mais dançantes músicas-tema de filmes de Hollywood. Isso no intervalo entre uma encomenda e outra, que pode ser uma seleção de rocks dos anos 60 ou o disco de estréia da esganiçada Tetê Espíndola. Uma cliente, saudosa da época em que o filho de 17 anos era recém-nascido, liga para Fernando Alves, que pode ser encontrado no 245-2004:

-Bom dia, é que eu tenho o disco We are the world, mas está danificado. O senhor pode fazer um CD dele para mim?

-We are the world?

-É. Aquele que foi feito para arrecadar mantimentos para os famintos da Etiópia.

-Ah. Tenho sim.

-Que ótimo! E o disco Plunct, plact, zum?

-A senhora quer o volume um ou o volume dois?

Ao som de O carimbador maluco ou Carmina Burana, Baden Powell ou Ella Fitzgerald, Zimbo Trio ou Os Demônios da Garoa, transcorre mais um dia musical da vida do empresário Fernando Alves.





4/29/2004 07:54:50 AM

 



Microcosmo de gente
A vida pulsa no universo eclético da multidão que transita na passarela do Iguatemi



Vagarosa, a multidão transita entre pedintes e camelôs, protagonistas do cenário rico em personagens intrigantes

Pablo Reis


O filósofo clássico Heráclito definia, com beleza peculiar às frases simples, o princípio de constante mutabilidade humana dizendo que "não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio". "Ou o homem não será o mesmo, ou o rio", ensinava. Provavelmente, a inspiração para o axioma do pensador tenha surgido de um banho no curso do rio Caystre na cidade de Éfeso, onde Heráclito nasceu, na antiga Jônia, atual Turquia. Já o intelectual contemporâneo Jean Baudrillard traz a questão da modernidade e da dissolução do indivíduo na selva da civilização com uma imagem ainda mais banal: a da passante que atrai a atenção e em seguida perde-se tragada pela multidão. Possivelmente, Baudrillard construiu sua metáfora caminhando pela Champs-Elysées, a larga, arborizada e imponente avenida que liga a Praça Charles de Gaulle à monumental Praça da Concórdia, em Paris. O aposentado, filósofo de botequim e anônimo Jaime Souza, 68 anos, versão mal-ajambrada de um Jece Valadão, com a boca banguela escancarada e um tanto de malícia no palavreado entrou na briga de conceitos. "É nesse vaivém, empurra-empurra que a vida fica mais gostosa", decretou, usando um duplo sentido que só percebeu quem pôde ver a cara de satisfação do idoso no meio do esfrega-esfrega. Para chegar à sua lapidar proposição, o senhor de cabelos brancos e pele enrugada, mas vicejando libidinagem, não ficou elucubrando conceitos, exercitando dialética ou teorizando sobre o sexo dos anjos. Foi criar seu próprio teorema onde a vida pulsa: a passarela do Iguatemi.

Mais movimentada passarela da Bahia, a via suspensa que une o shopping de maior freqüência do estado ao Terminal Rodoviário de Salvador é uma pequena cidade de uma só rua, sem edifícios, nem instituições. No diminuto trecho de 227 metros de comprimento por 2,5 metros de largura, uma Entre Rios caminha todo dia, uma São Sebastião do Passé anda ou uma Xique-Xique passeia. A média é de 40 mil pessoas transitando diariamente pelo local, estimativa da Secretarial de Transportes Urbanos. Tamanho fervilhar de vida foi prato cheio para a inspiração lúbrica de seu Jaime, em uma terça-feira, lá pelas 12h30. Poderia ser numa segunda, ou no início da noite de sexta, até mesmo num domingo ao meio-dia. Não coincidentemente, estes horários representam os momentos de término de cultos na vizinha edificação da Igreja Universal do Reino de Deus.

Do prédio monumental e imponente em uma das zonas mais nobres da cidade, sai uma leva de fiéis que toma conta das ruas em direção à Estação de Transbordo ou ao Terminal Rodoviário. Nessas horas, andar por aquela elevada estrada de concreto é como atravessar uma via-crúcis. Ou então a própria materialização do purgatório bíblico. "Isto aqui é um inferno", batiza uma jovem, baixinho para não atrair a ira do círculo de fiéis e Deus não tomar conhecimento da blasfêmia. Não se sabe sequer como a garota arrumou fôlego para o sussurro, espremida entre centenas de outras. Nesse momento, a multidão que transita de forma vagarosa tem dois objetivos: o primeiro é chegar aos seus pontos de ônibus; o outro com certeza é invalidar o princípio da impenetrabilidadeda física. No espremido corredor ao ar livre, nas horas mais críticas, é possível que um pedestre menos apressado e fisicamente desprotegido demore uns 20 minutos para vencer a compacta massa humana, quase um amálgama de gente.

Indo e vindo ao sabor do fluxo de pessoas, o estudante Ricardo Oliveira, 16 anos, 1,64m e 56 quilos, já não tem mais livre arbítrio no meio do povo. "Meus pés não estão tocando no chão", avisa. Os que conseguem preservar algum senso de humor são capazes de perceber situações engraçadíssimas. Um rapaz de 20 e poucos anos, camisa preta estampada com a palavra Kiss (não o carinhoso ato de beijar e sim o grupo de rock), muito impaciente com o tumulto, pisa o calcanhar da senhora à frente, descalçando o sapato simples e sem salto. Vestida com uma saia longa e uma camisa de cambraia presa aos pulsos, a despeito do calor infernal, a fiel exclama: "Que ..." O palavrão apropriado para uma situação tão irritante não chegou a sair da boca da crente que há pouco tinha embebido a alma com o bálsamo eclesiástico da fé. O jeito foi continuar andando com o calçado saindo do pé.

Um pouquinho mais à frente uma morena, enfiada em um top floral e numa calça branca colada às pernas e quadris bem cevados se intromete no bolo humano. É o suficiente para catalisar todos os esforços e hormônios de um mulato facilmente identificado como obreiro da igreja. Para ficar no horizonte da física, pode-se caracterizar a ação do benfeitor como um choque perfeitamente inelástico, um impulso traseiro para maximizar a quantidade de movimento. Afinal de contas, sabe-se que o nono mandamento prescreve: se o próximo não estiver tão próximo da mulher. Em cinco minutos, a multidão vai arrefecendo e, muitos chutes de calcanhares, empurrões e princípios de desmaios depois, toma seu curso normal. Normal não significa esterilidade de emoções e casos pitorescos. Eles estão sempre presentes na Passarela do Iguatemi.


Manancial


Exótico microcosmo de gente, pólis da essência humana, a passarela é um manancial rico em personagens. Na zona mais próximo ao shopping, sentada sobre um papelão, Maria da Conceição Silva, 43 anos, é vista como aberração por grande parte dos transeuntes. Com o corpo inflado em 130 quilos de gordura e a perna direita completamente deformada pelos males da elefantíase, a mulher sobrevive da conciliação de asco e piedade transformados em cédulas de pequeno valor e moedas arremessadas em direção ao corpo da enferma. "Não olhe pra essas coisas", diz o irmão mais velho de um garoto, protegendo os olhos do menino da visão do granuloso membro inferior da doente. Uma mãe utiliza o exemplo para dar uma lição de educação sanitária à filha: "Veja aí o que acontece com quem não se cuida", avisa, mostrando a perna da mulher tumorosa com a presença das filárias nos vasos linfáticos.

Por trás da aparência grotesca, esconde-se a alegria contagiante de Maria da Conceição. Fez três cirurgias sem sucesso na parte posterior do joelho e ouviu recentemente a previsão de um médico de que precisaria amputar. Antes teria que assinar um termo de responsabilidade reconhecendo o alto risco da cirurgia e a possibilidade de falecimento. Tenta há seis anos uma aposentadoria do INSS por invalidez, mas sempre ouve a resposta de que a enfermidade não permite a aposentadoria. A passarela é um sustento temporário, apenas aproveitando o filão das compras de fim de ano. Consegue, em média, R$20 por dia, saindo de casa às 7h e retornando meia-noite. "Faltam R$300 para eu completar os R$5,3 mil para comprar a cadeira de rodas motorizada", contabiliza, depois de praguejar contra os taxistas que não aceitam conduzi-la por causa da aparência. As pessoas passam e seus olhares de soslaio e repugnância não intimidam Maria da Conceição. "A perna não dói, mas quando fico nervosa ela rasga e mina um líquido", revela, mostrando três cicatrizes de cirurgias. Alternando o ponto entre a passarela e a avenida Manoel Dias, Conceição faz elogios ao local. "Ninguém rouba ninguém, os pivetes não perseguem. Aqui é nota dez", vibra. Como que para referendar a observação, Conceição recebe uma nota de R$1 da professora de artes marciais Elisângela Francisco, que não parece concordar com a comparação ao paraíso. "Não gosto muito de andar por aqui. Minha mãe já foi assaltada", alega, imprimindo mais velocidade na caminhada. Mas logo ela, que dá aulas de defesa pessoal, com medo de roubo? "Na verdade, o medo maior é de andar nessa altura", revela com inusitada acrofobia.

Praticamente pendurado em uma das barras, sentado, sem nenhuma forma de fixação a não ser o equilíbrio corporal, o ambulante Ricardo Araújo, 25 anos, sustenta discretamente uma coleção de bolsas de fabricação própria que tenta vender a R$5 cada. Tem cinco anos vendendo na passarela. Tenta fugir dos constantes assédios dos fiscais da Sesp, cuja função é não deixar ambulantes ocuparem o local para vendas. Aliás, "fiscais da Sesp" é uma expressão jamais usada por ambulantes, que preferem o sinônimo pejorativo para os profissionais: o rapa. "A gente até entende que eles estão fazendo o trabalho, mas têm que ver que precisamos sustentar a família", condena Ricardo, pai de uma menina de 2 anos. Em cinco anos trabalhando na passarela, acompanhou um teatro a céu aberto. "Aqui acontece de tudo: gente tropeçando e caindo, marido dando tapa em mulher, até os caras roubando", denuncia. No meio do papo, a doméstica Gilvanete Barbosa, 19 anos, depois de mais um dia de serviço na "casa de família" no Caminho das Árvores, encanta-se com o modelo da bolsinha. Acertada a pechincha (R$4,50), a única questão é escolher a cor da peça. O vendedor, que em dias bons vende quatro bolsas e nos ruins nenhuma, sugere: "Leve essa marronzinha que combina com sua pele", acrescenta, olhos gulosos nas coxas da moça apenas parcialmente cobertas por uma saia de crochê. Em direção à rodoviária, onde vai pegar ônibus para Marechal Rondon, Gilvanete passa por Genivaldo de Jesus Souza, um deficiente físico que prega passagens bíblicas diuturnamente e recebe caridade. "Deus tem uma missão para você", conclama, enquanto Gilvanete passa pelo local sem dar muita atenção. A frase tanto pode ter sido para ela como para as cinco ou seis pessoas que andam simultaneamente ao seu lado. Com uma deformidade no tronco e nos membros que o reduz a um tamanho não superior a um metro, Genivaldo recita parábolas bíblicas continuamente. Sem poder se locomover, chega ao local às 9h, carregado pelo irmão Ubirajara. "Desde que aceitei Jesus, em 99, na Igreja Batista de Plataforma, vi que Deus tem um plano para mim. Uma vez, um jovem ia se jogar dessa passarela e, ao ouvir minhas palavras, desistiu", confia. O slogan do shopping é "nenhum é igual a você". O rio de gente que corre diariamente pelo espaço faz com que a passarela seja sempre a mesma e sempre diferente.



Vida suspensa


Passarelas projetadas por Lelé formam ecossistemas ricos em personagens


A passarela do Iguatemi é uma exacerbação do que acontece em outros equipamentos da cidade. Salvador tem 16 passarelas no modelo mais moderno, projetadas pelo arquiteto João Filgueiras e construídas pela Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal), empresa de economia mista especializada na fabricação de mobiliário urbano de alta resistência e que também serve à iniciativa privada. Cada uma delas tem uma personalidade própria, a depender da espécie de transeunte que comporta. As quatro passarelas na Avenida Bonocô são gêmeas, abrigam três pontos de ônibus em ambas as pistas da avenida e na via exclusiva. Não têm tanto movimento como outras mais trafegadas, mas possuem uma conotação clubística marcante. Principalmente em dias de Ba-Vi na Fonte Nova, são decoradas com bandeiras das equipes. A passarela do Detran é uma das mais antigas e foi decisiva para a diminuição do número de atropelamentos na região.

Na BR-324, algumas passarelas antigas e descobertas servem à população local. Uma delas, próximo à Brasilgás, bem conservada, recebe bom fluxo de passageiros carregando sacos, pacotes, malas e mochilas, que saem de São Caetano para pegar ônibus intermunicipais na parada. Mesmo sem ter um toldo de proteção, os transeuntes preferem usá-la até em dias de chuva a atravessar a rodovia. As passarelas da Avenida ACM viraram ponto preferencial de suporte de galhardetes e cartazes no período eleitoral.

Na Avenida Centenário, no Chame-Chame, uma passarela no Shopping Barra é a que mais se assemelha ao perfil da similar no Iguatemi. Com um fluxo de pessoas razoável, configura os jogos de poder e as implicações sociais observadas na principal expoente do fenômeno das passarelas. Logo de início, uma senhora, daquelas com aparência de que fazem passeios vespertinos em supermercados, reclama da ausência de iluminação artificial no local. O ambulante Antônio Barbosa, 55 anos, vendedor de bugigangas paraguaias, confirma a queixa, ressaltando que não é feita manutenção há quase dois anos. "Trabalho no escuro até a hora do shopping fechar", afirma Antônio, salientando que a partir das 18h, "hora que o rapa vai embora", trabalha mais livremente. A chuva começa a cair e ele rapidamente muda o nicho de mercado, estendendo sombrinhas. A estratégia dá certo. Um senhora, roupa molhada, cabelo sarará escorrendo água e entrevendo calvície, questiona: "Quanto é?" "Cinco reais". Escolhe uma estampada em rosa com motivos florais, a mais espalhafatosa das peças.

Embate de classes


A reprodução do embate de classes não se esgota. Dois rapazes com estilo de geração shopping center (roupas de marca, tênis da moda, cabelos com gel) emendam: "Ô, véio, quanto é o guarda-chuva?" "Cinco reais". Ambos saem sem nem um agradecimento. Um senhor vestido com calça de linho e camisa social se aproxima e sequer pergunta o preço. Aponta para a sombrinha em tons marrons. "Aquela ali". Só depois questiona o valor: "É cinco reais, não é?" E leva. Antônio aponta para um vendedor, poucos metros adiante, que se recusara a dar entrevista. "Aquele é safado, quer prejudicar chamando o rapa. Já tomou porrada porque é dedo-duro". E vende mais uma sombrinha antes da chuva cessar.

Sentados em poses que poderiam ser confundidas com indolência, quatro hippies fazem artesanato em palha e bijouterias. Depois de passarem por Itubiara, Brasília, Juazeiro e Petrolina, a previsão é de retornar logo que arrecadarem o dinheiro para a passagem. Um deles, Gilberto Gonçalves, mostra uma sacola com uma muda de roupa puída, uma marmita e uma manta velha. Enquanto isso, dois vendedores de loja de marca, fardados, perguntam quanto custa um colar. Pela expressão de reprovação, não gostaram de ouvir R$10. Mais na frente, um casal branco de estrangeiros compra um cinto pretensamente de couro nas mãos de outro ambulante. Ao lado, o vendedor de doces oferece uma iguaria exótica ao paladar europeu: beijuzinho molhado de tapioca. "Faço por R$0,50". E nessa, a integração étnica vai se desenrolando. A passarela não tem fronteiras.

Mais do que equipamentos facilitadores do trânsito, as passarelas de Salvador se transformaram em pequenos ecossistemas. A do Iguatemi é insuperável. A dupla de soldados da PM, Lacerda e Vieira, sabe muito bem disso. "Aqui dá de tudo. De estelionatário a viado ordenando o bofe a largar o outro", avisa Vieira, óculos escuros no rosto e pinta de tira do antigo seriado Chips. Encostados nos peitoris de ferro ou fazendo uma ronda pelo local, os dois formam uma das três duplas de policiais que se revezam em turnos das 7h às 13h, 13h às 19h e 16h30 às 22h30. "Depois que o policiamento ficou constante aqui, o índice de ocorrências caiu muito", assegura o orgulhoso Lacerda. "Antes, tinha muito pivetinho praticando pequenos furtos", completa. Basta terminar de falar para dois menores passarem, tentando disfarçar a apreensão. "Aqueles dois ali são ladrõezinhos, mas como viram que estamos aqui vão procurar outro canal".


Velhos tarados


Lacerda e Vieira já viram muita história na passarela. "Teve briga por causa de traição, flagrante de adultério, mas também tem muita gente que deixa o carro aí no estacionamento do shopping e se encontra por aqui", entrega Lacerda, detetive particular nas horas vagas. "Ultimamente, tem aparecido muito velho tarado. Eles entram no bolo de gente para ficar roçando o braço nos seios e nas nádegas das mulheres. Ou então oferecem R$20 ou R$30 para as garotas mostrarem os seios. Alguns conseguem", detalha. Um senhor de paletó, acima de qualquer suspeita, caminha rapidamente carregando uma pasta e, quando abordado pela reportagem do Correio da Bahia, dá de ombros: "Tô ocupado agora". O soldado Vieira dá sua versão para o repúdio do idoso. "Aquele mesmo é um dos velhos tarados".

Em uma informal convenção para a viabilização do trânsito, as pessoas adotam, nas passarelas, o critério de fluxo semelhante ao dos automóveis em rodovias: duas filas caminhando em direções opostas com os pedestres à direita. Geralmente, esse tipo de escolha facilita o trabalho dos distribuidores de panfletos. Eles são facilmente encontrados oferecendo de limpeza de estofados a dedetização, de dinheiro fácil a consultas ao tarô. Para Ana Lúcia Santos, 23 anos, o vaivém de gente vai ser transformado em um polpudo aumento nas comissões. Ela tenta cadastrar associados para o cartão de compras de um supermercado próximo. Por que escolheu o local? "Porque aqui tem muito movimento", responde, sem querer perder tempo e mais um potencial cliente. Em 30 minutos, conseguiu 22 adesões, quase um recorde do marketing one-to-one. "O produto também é bom, a gente dá 40 dias para pagar e quatro vezes sem juros, sem taxa de anuidade", completa como exercício de modéstia.

Quando menos se espera, a circulação é atravancada, as passagens são interrompidas. Na frente de uma fileira de pessoas, um deficiente físico, apoiado em muletas, não consegue manter a mesma cadência da maioria, provocando um engarrafamento humano parecido com o de carros que acontece na pista alguns metros abaixo. Um pouco atrás, sem perceber as razões do congestionamento, um rapaz resmunga: "Pôxa, até parece que tem aleijado na fila". E na ala oposta, em outro momento, uma mulher reclama com a garota da frente: "Ih, essa aí está desfilando". Desfilar, desfilar mesmo, a estudante Carolina Santana, 16 anos, só poderia nesse tipo de passarela. Baixotinha, um pouco acima do peso, cabelos desgrenhados e rosto com espinha, não tem nada do biótipo e do glamour das modelos que desfilam suas magrezas pouco ocultas em roupas chiques no Iguatemi Collection. Lá vai Carol no mesmo passo, sem dar bola às queixas, pisando em ovos e tendo um público um pouco mais hostil do que os dos desfiles de moda. A passarela popular é assim mesmo: dinâmica, plural, sem preconceitos.






4/29/2004 07:54:24 AM

Segunda-feira, Abril 05, 2004  
Bibliografia dos trabalhos em equipe


09 de setembro
NOBLAT, Ricardo. "Sobre a arte de apurar". In: . A arte de fazer um jornal diário. São Paulo: Contexto, 2002, . 33-75.


28 de setembro
VILAS BOAS, Sérgio. ¿Feições de um perfil jornalístico¿. IN: . Perfis e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003, p.13-33.

14 de outubro
COIMBRA, Oswaldo. "Reportagem dissertativa". In: . O texto da reportagem impressa; um curso sobre sua estrutura. São Paulo: Ática, 1993, p. 22- 39.

21 de outubro
COIMBRA, Oswaldo. "Reportagem narrativa". In: . O texto da reportagem impressa; um curso sobre sua estrutura. São Paulo: Ática, 1993, p. 44- 75.


04 de novembro
COIMBRA, Oswaldo. "Reportagem descritiva, bloco e fragmento". In: . O texto da reportagem impressa; um curso sobre sua estrutura. São Paulo: Ática, 1993, p. 86- 117.


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